Vera estava fritando almôndegas quando o marido entrou na cozinha. “Vera, precisamos conversar”, disse Igor com firmeza. “Fala então”, respondeu ela, sem tirar os olhos da frigideira.

Ana fritava bifanas quando o homem entrou na cozinha. “Ana, precisamos conversar”, disse António com firmeza. “Fala”, respondeu ela sem tirar os olhos da frigideira.

“Talvez queiras sentar-te e ouvir como deve ser?”, a voz dele traía impaciência. “Não posso, tenho que vigiar as bifanas”, respondeu a mulher. “O que querias dizer-me?”

“Eu…”, António engasgou-se, procurando as palavras. “Encontrei outra mulher… Vou embora!”

“Parabéns. Fico muito feliz por ti”, disse Ana, serena.

“Parabéns? Feliz?!”, ele fitou-a, incrédulo. Mas António nem imaginava o que Ana planeava naquele momento.

***

“Para ser sincera…”, a amiga calou-se por um instante, como se temesse dizer demais. “Ainda não entendo: como te atreveste? Isto ultrapassa todos os limites, Ana!”

“Limites de quê? Do bem ou do mal?”

“Bem, tu sabes como é…”

“Seja como for”, Ana sorriu. “O que importa é o resultado. E o meu resultado foi perfeito. Consegui o que queria!”

“Mesmo assim”, a vizinha franziu o sobrolho. “Haverá consequências…”

“Não sejas agourenta!”, Ana cortou. “Quando elas vierem, lidaremos. Agora é tempo de alegria e vitória! Não estragues o meu momento!”

A vizinha encolheu os ombros, fingindo interesse pela paisagem lá fora.

***

Tudo começou naquela noite, quando o marido de Ana chegou do trabalho e disse, disfarçando o desconforto:

“Precisamos conversar…”

Ana sentiu um nó no estômago. Esperara por isto há tempos. E agora começava.

“Fala”, respondeu, virando as bifanas no lume.

“Queres sentar-te e ouvir como deve ser?”, a voz de António soou irritada. “Ou devo falar para as tuas costas?”

“Não tenho tempo, querido”, Ana respondeu calmamente. “O Miguel lembra-se de mim a qualquer momento: ‘Mãe, isto, mãe, aquilo’. Vamos diretos ao assunto. O que querias dizer?”

“Eu…”, António hesitou. “Encontrei outra mulher…”

“E?”, Ana nem se virou. “E depois?”

“Desliga essa frigideira!”, ele explodiu. “Estás a ouvir?! Eu amo outra!”

“Estou”, Ana finalmente olhou para ele. “Parabéns.”

“O quê?!”, António ficou pasmo. Esperava lágrimas, não frieza.

“Mais baixo, vais assustar as crianças”, ela manteve a calma, como se nada a surpreendesse.

“Tu sabias?”, ele sussurrou.

“Não, mas suspeitava.”

“Suspeitavas?”

“Claro. Tu não suspeitarias se eu chegasse tarde do trabalho? Se escondesse o telemóvel? Se arranjasse desculpas para dormir noutro quarto? António, qualquer um percebe quando já não é amado…”

“Então porque não disseste nada?”

“Porque foste tu que propuseste o casamento. E foste tu que decidiste acabar com ele.”

António olhou para a mulher e não a reconheceu. Tanta dignidade, tanta serenidade. Esperava lágrimas, não esta força silenciosa.

“Enfim, tenho uma proposta…”

“Interessante…”, Ana sentou-se, atenta.

“Pensei bem… Temos um empréstimo… Tu não conseguirás pagá-lo, mesmo com a pensão de alimentos…”

“Já não discutimos o divórcio?”, a voz de Ana ganhou um tom cortante.

“O que há para discutir? Obviamente não me perdoarás.”

“Claro…”, ela sorriu. “Conheces-me tão bem…”

“Então, seria melhor se fosses para o teu T1, e eu ficaria aqui.”

“E as crianças?”

“Vão contigo, claro.”

“Então, eu e duas crianças num T1, e tu com a tua nova paixão na nossa casa de três quartos?”

“Exato. Tu não podes pagar o empréstimo. Eu sempre o paguei sozinho.”

“Entendi”, Ana levantou-se. “Preciso pensar.”

Ela saiu para a varanda.

“Pensa à vontade”, António riu-se, pensando: “O que há para pensar?”

Enquanto Ana estava fora, ele encheu um prato com bifanas e puré de batata, devorando tudo.

Não chegou a terminar.

“Aceito”, anunciou Ana ao voltar. “Com uma condição.”

“Qual?”, ele sorriu, condescendente.

“Ficas com a casa, a tua paixão e o nosso filho. Eu e a Rita mudamo-nos.”

“O quê?!”, o rosto de António desfigurou-se. “Queres… dividir os filhos?!”

“Porquê não? A responsabilidade é dos dois. Ficas com o filho que tanto desejaste. Eu fico com a Rita. Justo, não?”

“Estás louca? Crianças não são móveis!”

“Claro que não. Por isso não vou carregá-las sozinha enquanto tu descansas. Não vai acontecer.”

“Eu pagarei a pensão! E ajudarei…”

“Claro. Pagas a mim, eu pago a ti. Fizemos os filhos juntos, criamo-los juntos. Se não queres o Miguel, ficas com a Rita. Vês? Estou a ser flexível.”

“Nunca pensei que fosses tão cruel!”, ele gritou. “Queres vingar-te usando os miúdos?!”

“Não inventes. Não vales a pena. Só quero justiça. Tu: casa de três quartos e o Miguel. Eu: T1 e a Rita. Pensões mútuas. Divórcio amigável. Caso contrário, luto. Não cedo nem uma colher. Pensa. E pensa noutro lugar.”

António foi-se embora.

Consultou a amante, a mãe, a irmã. Todos disseram que Ana blefava. Nenhuma mãe abandonaria um filho por metros quadrados. Ele podia aceitar. Em três dias, ela voltaria atrás.

Quanto à amante (chamava-se Sofia), esta ficou extasiada. Três quartos no centro! Nunca sonhara com tal presente! O facto de também ganhar um miúdo de quatro anos passou-lhe ao lado.

Dias depois, António aceitou a proposta.

“Ótimo”, disse Ana, insistindo que ele pedisse o divórcio no dia seguinte.

“Porquê eu?”

“Porque és o homem. E porque tens mais dinheiro para as custas.”

Lógica suficiente. Ele pediu o divórcio.

***

A espera durou três meses. António mudou-se para casa de Sofia. Ana preparou-se para sair e ouviu críticas de todos os lados.

António espalhara que Ana dividira os filhos por uma casa.

“Como podes?”

“Que mãe és tu?”

“Não tens vergonha?”

Até a Rita, de doze anos, acusou: “Pensei que nos amasses…”

Ana ignorou tudo. Esperou.

O divórcio veio. O juiz estranhou:

“Quer deixar o filho com o pai?”

“Sim”, respondeu Ana. “A responsabilidade é igual. Ele não se importa. Aliás, está feliz. Não é, António?”

Ele acenou.

Assim se decidiu.

António suspirou aliviado…

Em vão.

***

Ana preparou tudo. Recolheu os pertences. E deixou notas para António:

“O que o Miguel gosta, o que não gosta, o nome da educadora, alergias, desenhos animados, o centro de saúde, etc.”

António leu e riu-se:

“Para quê isto? Nós damos conta! Certo, filho?”

Ele levantou o miúdo no ar, fazendo-o rir.

“Vamos indo”, Ana

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Vera estava fritando almôndegas quando o marido entrou na cozinha. “Vera, precisamos conversar”, disse Igor com firmeza. “Fala então”, respondeu ela, sem tirar os olhos da frigideira.