Diário, 15 de Outubro de 2023
A minha mãe, Helena, casou-se tarde – aos trinta e um anos, segundo a minha avó Ana. Mas, mesmo assim, tinha um rosto bonito: olhos cinzentos, cabelo castanho claro e levemente ondulado até aos ombros, um sorriso doce.
— Devias ter procurado marido mais cedo, andaste sempre a estudar e a ser tímida. As tuas amigas já escolheram os melhores pretendentes, — queixava-se a avó Ana, — e agora ficas com o que sobra. Não gosto do teu namorado, João. Vem de uma família simples, os pais são do campo, mas cheio de arrogância… Que absurdo?
O João tinha mesmo um feitio complicado, autoritário e intolerante. Mas isso só se viu depois do casamento. No início, ele portava-se bem, cortejava-a com flores e atenção.
Quando a lua-de-mel passou, o marido começou a mostrar o verdadeiro carácter, fazendo críticas a torto e a direito, sem se importar se a magoava com o tom severo. A Helena esforçava-se para manter a família, ouvia-o, trabalhava no instituto de projectos, era respeitada no emprego, e ainda cuidava da casa. O João só franzia a testa e despejava o mau humor nela.
Nasceu o António, e quando o miúdo começou a adoecer e a não dormir à noite, o João afastou-se, indo dormir no quarto ao lado para não ser incomodado.
Quando o António fez quatro anos, divorciaram-se. A Helena, exausta do feitio do marido, decidiu criar o filho sozinha. O João concordou com uma facilidade que mais a magoou. Depois soube-se que já tinha outra pessoa. Felizmente, mudou-se com a nova mulher para o Porto, e a Helena sentiu alívio por nunca mais o encontrar na rua.
A Helena dedicou todo o seu carinho ao único filho.
— Helena, — dizia-lhe a avó Ana, — ainda és nova, bonita, podias casar-te ou ao menos arranjar um amigo…
Mas a Helena não ouvia. Trabalhava sem parar para dar ao filho tudo o que precisava. Poupa em tudo para juntar para os estudos e o casamento do António, negando-se a si própria. A pensão de alimentos do João era muito pequena.
O António cresceu, estudou bem, e no secundário teve explicações para entrar na universidade. A Helena despertou-lhe o gosto pela profissão dela, e quando ele acabou o curso, ela já tinha combinado no instituto para o contratarem.
— Vou reformar-me daqui a pouco, e tu entras como jovem engenheiro! Convenci o director. Conhece a nossa família há anos e prometeu aceitar-te… — alegrava-se a Helena.
O António voltou para casa e começou a trabalhar no instituto onde a mãe passara tantos anos.
— Não te vou desiludir! — abraçava-a ele, — e tu vais descansar… A mudança de geração!
Um ano depois, a Helena reformou-se aos cinquenta e cinco anos. Nessa altura, o António já namorava a Inês, uma loira bonita e de curvas generosas. O António estava apaixonado, e o casal preparava o casamento.
A Helena alegrava-se pelo filho. Só a entristecia a saúde da avó Ana, que já tinha oitenta anos e precisava constantemente do médico de família. A Helena ora dormia em casa da mãe, quando esta não se sentia bem, ora voltava à sua, mas visitava-a todos os dias, levava-lhe comida e medicamentos. A avó perguntava pelos jovens, pelo tempo e pela saúde da filha.
— Vou-me embora em breve, filha, — dizia a avó Ana, — e dói-me a alma por ti. Não pelo António, que tem a mulher. São novos, fortes. Tu passaste a vida a criá-lo, a puxá-lo, a educá-lo, juntaste para o casamento, demos-lhe dinheiro para o carro. Tudo para ele. Nunca casaste, nunca foste à praia nem ao sul… Tenho pena de ti. E eu aqui doente há dois anos, sempre nas tuas mãos.
— Não digas isso, mãe, não me arrependo de nada… O António é a luz dos meus olhos… — começou a Helena.
— Exactamente, a luz dos teus olhos, mas não devia ser assim. Tu mimaste-o… Já passou meio ano desde o casamento, e eles nunca vieram aqui. Sabem que estou doente, à beira da morte… Talvez não nos vejamos mais. Também não te visitam. É correcto? — preocupava-se a avó.
— Que dizes, mãe? Estão na fase da lua-de-mel. Não têm tempo para nós. Além disso, trabalham… — a Helena defendia o filho e a nora.
— Não, — abanou a cabeça a avó Ana, — não é assim. Mãe é mãe. E tu fizeste tanto por ele… Não se pode esquecer. Nem na tristeza, nem na alegria… Mimaste-o, sim…
A Helena calou-se. Depois ligou ao António e pediu-lhe que fosse a casa da avó, pois ela não se sentia bem.
O António foi com a Inês, estiveram meia hora, beberam chá e apressaram-se a ir embora. Viviam em casa dos pais da Inês, numa moradia.
A avó Ana faleceu. A Helena chorou, com pena da mãe e um pouco de si mesma. As palavras da mãe ecoavam-lhe nas noites longas, quando se sentava sozinha à janela, lembrando-se de quando o filho voltava do trabalho e ela punha a mesa, trocando novidades… Agora estava só.
Mas a Helena reagiu e foi trabalhar para um jardim de infância, surpreendendo todos.
— Tens um curso superior e vais lavar chãos? Na idade da reforma… — diziam as vizinhas. Ela respondia: — Não faz mal. Passei a vida sentada, a desenhar. Preciso de mexer-me. A minha mãe foi educadora de infância quando nova, eu adorava ir ter com ela depois da escola…
A Helena tinha uma pensão pequena, gastara todas as poupanças no filho. Embora sempre tivesse vivido com modestia, agora queria um pouco mais de liberdade financeira. O trabalho tirava-lhe forças e tempo, mas não a deixava aborrecer-se. E, por insistência da vizinha, juntou-se a um coro popular no centro cultural, e a vida tornou-se mais interessante.
A Helena ocupava-se também para não incomodar o António e a Inês, embora lhe doesse que o filho não só não a visitava, como raramente ligava, e só para tratar de assuntos.
De vez em quando, chorava à noite, folheando o álbum de fotografias da infância do filho. Para não sentir tanto a falta, mandou ampliar as suas fotos preferidas com ele, emolduradas como quadros, e pendurou-as por toda a casa.
Parava muitas vezes diante delas, tocava no rosto do filho e sorria. Às vezes, parecia-lhe que ele sorria de volta. Depois, ficava à espera do telefone, e alegrava-se quando ele aparecia para um chá ou para buscar alguma coisa.
O António nunca se demorava muito. Nem reparou nas fotos emolduradas. Quando finalmente as viu, parou, olhou para a mãe e perguntou, surpreendido:
— O que é que te deu para pendurar isso?
— Ora… — hesitou a Helena, — já não sou nova, e lembro-me daquele tempo, o mais dourado, quando eras pequeno…
O António acenou e fugiu para casa da mulher, sem perceber as “excentricidades” da mãe. A Helena sentia como se a avó a ajudasse do céu. No coro, arranjou um amigo, o Nicolau.
— Ó Helena, só temos três homens no grupo, e tu levaste um. Nós tentámos seduzi-lo durante anos, e tu apaixonaste-o num instante! — riam-se as outras, — é o que é ser nova!
Todos riam, e o próprio Nicolau beijava-lhe a mão ao acompanhá-la a casa depois dos ensaios.
A Helena não levava a amizade a sério, mas aceitava com simpatia as atenções do solista de sessenta e cinco anos. Ele era persistente e adorava-a, ligado de alma.
— Helena, nem imagina como é bom estar consigo. Inteligente, sabe ouvir, calma, e tão bonita.
— Basta, não me elogie mais, que fico convencida. Acredito, e digo o mesmo de si. Além disso, é tão talentoso! Devia actuar num palco grande.
— Já quis desistir dos concertos. Posso cantar em casa, à mesa nas festas, os meus filhos ouvem-me com gosto. Mas juntei-me ao grupo há dez anos, depois de ficar viúvo, porque as noites sozinho eram insuportáveis. Aqui, há um bom director, actuações, pequenas festas… E agora não vou sair, quero estar ao seu lado.
A Helena voltava para casa, olhava para as fotos e suspirava. O António continuava a ligar raramente, e nada substituía essa falta, nem o canto, nem o trabalho, nem os amigos.
Mas ela aguentava e alegrava-se com as visitas raras do filho. Só ultimamente ele começara a insinuar que seria bom vender o apartamento da avó para ajudá-los a comprar uma casa própria.
— Não se dão bem com a família dela? — perguntou a Helena, preocupada.
— Não, mas a Inês quer um apartamento só nosso, — hesitou o António.
— Então, sejam bem-vindos, podem mudar-se amanhã! — disse a Helena. — É um T2 pequeno, mas dá para vocês, como jovem casal.
— A sério? — brilhou o António, — és a melhor mãe do mundo! Vou contar à Inês. Temos casa própria!
— Um momento, filho. O apartamento continua a ser meu, — travou-o a Helena, — não vou passar para ninguém já. Vivam em harmonia e dêem-me netos.
O António foi-se. E depressa se mudou com a Inês para o acolhedor apartamento da avó. Como a mãe pedira, um ano depois nasceu uma menina, para alegria de todos.
A Helena deixou o trabalho, percebendo que era tempo de cuidar da neta e de si mesma, para estar saudável. O Nicolau, persistente, acabou por convencê-la a viverem juntos, e tornaram-se um casal, morando em duas casas.
A Helena habituou-se ao papel de avó e de mulher, surpreendendo-se com a rapidez com que a vida mudava. Agradecia ao Nicolau pela “segunda primavera”, e ele não se cansava de se alegrar com o amor e de agradecer ao destino.
A jovem família também estava bem. O António tornou-se mais atento à mãe, visitando-a com mais frequência. Um dia, falou sobre trocar de apartamentos.
— Vamos ter um segundo filho, mãe, — começou ele.
— Sei, e fico muito contente, — sorriu a Helena.
— A Inês pediu-me para falar contigo, para te mudares para o apartamento da avó, e nós para cá, o nosso. É maior, tem mais dez metros quadrados, é um prédio antigo. Com dois miúdos, é mais prático…
— E por que é que a Inês pede sempre por ti, e não fala directamente? — sorriu a Helena, — sabe que não te consigo recusar? E porque é que ela não convence os pais a irem para o apartamento da avó, e vocês ficam com a casa deles? Ela é filha única! As crianças teriam tanto espaço!
O António corou e foi-se embora. A Helena não se apressou a agradar ao filho. Também se tinha habituado ao seu apartamento. Cada coisa estava à mão, tudo no seu lugar, familiar e vivido, até uma agulha se encontrava de olhos fechados…
E lembrava-se das palavras da avó: “Mimaste-o, António, mimaste-o…” E a Helena decidiu não apressar as coisas. Nasceu a segunda neta, trazendo mais alegrias a todos. As meninas cresciam juntas, num quarto pequeno, e aos fins-de-semana iam ora à avó Helena, ora aos avós maternos. Lá tinham espaço no quintal, no jardim com o caramanchão, baloiços e frutos.
A Helena e o Nicolau passaram a viver juntos, no apartamento dela, e alugaram o dele para terem mais rendimentos. Amavam ir ao teatro e fazer pequenas excursões de um ou dois dias, e por isso decidiram coabitar.
Só passados doze anos, quando o Nicolau faleceu, é que a Helena se mudou para o apartamento da sua mãe, que também fora a sua casa de infância.
— Pronto, filho, fiquem com o nosso apartamento, vivam lá, que a mim já me basta o pequeno, — disse ela, — já viajei, já cantei, agora fico em casa, à espera das miúdas e de vocês. Espero que não me abandonem…
O filho abraçou-a e ajudou-a a mudar-se, fazendo uma pequena obra no apartamento antigo.
A Helena não mudou nada na decoração. Apenas pendurou nas paredes as grandes fotos do filho, da mãe e dela em jovem. E na mesa de cabeceira, um retrato do Nicolau…
— Estamos todos aqui juntos, — sorria ela, luminosa e serena, olhando para os seus queridos nas fotos, — e o que mais posso desejar? As paredes da família e o calor das pessoas que amei.
As netas visitavam-na. Adoravam passar a noite com ela, no quartinho onde ainda estavam as suas camas, e conversavam durante horas, entre risos e brincadeiras.
— Meninas, hora de dormir! — mandava a avó da sala, — passarinhos tagarelas… Amanhã cedo. Vou ensinar-vos a fazer pastéis de nata. Daqui a pouco são noivas. E eu mesma vou examinar-vos na cozinha!
Aprendi, neste dia, que o amor de mãe é um fio que nunca se parte, mas que não se deve esticar até o rasgar. Mimámos o António, sim, mas a Helena deu-lhe asas, e ele voou. Eu, ao escrever isto, vejo que o equilíbrio entre dar e exigir é a verdadeira herança.




