Eu já te avisei – para onde levaste o dinheiro, é lá que vais jantar! E tomar o pequeno-almoço também, já agora – declarou a esposa, sentando-se na poltrona com a sua malha

Eu já te avisei: para onde o dinheiro foi, é lá que vais jantar! E tomar o pequeno-almoço também, já agora! declarou a esposa, sentando-se na poltrona com o seu tricote.

Lúcia! Estás em casa? chamou Vítor, entrando no apartamento.

Estou na cozinha respondeu Lúcia.

Hoje, tinha chegado mais cedo e dedicava-se a preparar o jantar.

Vítor despiu o casaco, lavou as mãos e dirigiu-se à cozinha.

Então, não vens gabar-te? perguntou ele.

Gabarme? E de quê, exactamente? surpreendeu-se Lúcia.

Encontrei a Rita do teu departamento a caminho de casa. Ela contou-me que hoje receberam o bónus trimestral. Um bom bónus.

É verdade, recebemos. Mas porque é que isso te alegra?

Como assim? Ontem disse-te que a minha mãe ligou, pedindo ajuda para a Filipa com a hipoteca. Disseste que não tínhamos dinheiro. Agora temos. Podemos mandar-lhe dez mil euros sugeriu Vítor.

A celebrar o quê? perguntou Lúcia.

Não faças de conta. Sabes bem que a Filipa está a passar dificuldades sozinha com a hipoteca. Vou ligar à minha mãe e dizer-lhe que mandamos o dinheiro disse ele, pegando no telemóvel.

Espera lá! Parado! Eu disse que estava disposta a pagar a hipoteca da tua irmã? travou-o Lúcia.

Porque não ajudar, se temos o dinheiro?

Para começar, o dinheiro não é “nosso”, é meu. É um bónus que ganhei a trabalhar como uma louca durante três meses! Achas que me levanto de madrugada e me mato no escritório só para agradar à tua irmã?

Lúcia, ela tem filhos!

Vítor, eu também tenho uma filha. A Marta, lembras-te? Está no segundo ano da universidade e vive noutra cidade, numa residência. E eu mando-lhe dinheiro todos os meses. Tu, nestes dois anos, deste-lhe alguma vez um tostão?

Eu sei que tu lhe envias…

Talvez ela gostasse de receber algo do pai, nem que fosse para um par de meias! retorquiu Lúcia. E a tua irmã, antes de se meter numa hipoteca, devia ter pensado se a conseguiria pagar.

O banco aprovou-lhe o crédito! lembrou Vítor.

Claro que aprovou. O banco empresta a quem pode pagar. Se ela não tem, é porque o gasta mal em salões e cafés, em vez de amortizar o empréstimo. Eu não vou patrocinar os caprichos dela!

Nessa noite, Vítor ouviu Lúcia a telefonar à mãe, dizendo que lhe tinha transferido oito mil euros.

Interessante: para a Filipa não há dinheiro, mas para a minha mãe, já há! irritou-se ele.

Exacto, Vítor. A minha mãe partiu a prótese dentária e a reforma não chega. Além disso, é a minha mãe. A Filipa não é nada para mim explicou Lúcia.

Filipa é minha irmã!

Pois é, tua, não minha. Que exigências são essas?

Se é assim, no dia do pagamento mando-lhe eu o dinheiro disse Vítor.

Força! Mas primeiro, como sempre, transfere dez mil para a conta das despesas respondeu Lúcia.

Lúcia, não é demais? Não pode ser menos?

Pode, mas então o jantar será esparguete com ketchup, em vez de bifes ou empadão. Também podemos cortar a água e a luz, se preferires sorriu ela.

E não há maneira de gerir melhor o dinheiro?

Experimenta. Se conseguires, tomo nota respondeu a esposa.

A discussão terminou ali. Mas Vítor decidiu que Lúcia não cumpriria a ameaça e transferiu quase o salário inteiro para a irmã.

Enganou-se. No dia seguinte, ao chegar a casa, não havia jantar.

Lúcia, o que temos para jantar?

Olha no frigorífico.

Vítor abriu a porta: estava vazio. Apenas uma garrafa de ketchup e duas maçãs murchas.

Lúcia, não há nada!

Não? E devia haver? Puseste lá alguma coisa? perguntou ela. Para tirar, primeiro tens de meter.

Estou com fome!

Imagino. Mas eu avisei: para onde o dinheiro foi, é lá que jantas. E tomas o pequeno-almoço também disse Lúcia, pegando novamente no tricote.

Vítor teve de ir jantar a casa da mãe.

No dia seguinte, a sogra, Dona Odete, apareceu para dar uma lição à nora.

Depois de um longo sermão, Lúcia respondeu:

Esforçou-se em vão, Dona Odete. Já sei que sou má esposa. Talvez o Vítor deva mudar-se para sua casa.

Não digas disparates! Casaste, vive com o teu marido!

Compreendo. Só eu é que sou má! O apartamento é óptimo, o salário é bom, o bónus também. O problema é que não quero partilhar nada convosco nem com a Filipa!

Decidiste deixar o meu filho sem um tostão? Então sustenta-o você este mês! Ele não come salsichas e torce o nariz ao frango. Para jantar, quer bife com batata frita e salada. Ou então rojões. E lava-lhe tu a roupa!

Lúcia, enlouqueceste? Vocês viviam tão bem antes!

Vivíamos, até você meter o nariz onde não era chamada. Separou a Filipa do Guilherme e agora quer fazer o mesmo connosco?

Que história é essa? Quem é que eu separei?

Quem, se não você? Andou a minar: “O Guilherme não presta, ganha pouco, a casa é pequena…” Até que ele fugiu! Agora a Filipa está sozinha com dois filhos e uma hipoteca. Satisfeita?

Mas não bastou, teve de vir atrás de nós! Eu não sou o Guilherme. Se quer o Vítor de volta, trate dele você!

Lúcia, eu nunca pensei em separar-me! Foi a minha mãe que sugeriu ajudar a Filipa! defendeu-se Vítor.

Ajude, então. Até ao próximo ordenado, fica com ela ou com a Filipa. Eu pensarei no resto.

E Vítor percebeu que ela falava a sério. Passou o mês em casa da mãe.

No dia cinco, voltou.

Lúcia, transferi o ordenado e mandei três mil para a Marta anunciou.

Da cozinha vinha o aroma irresistível de carne de porco à alentejana.

Lava as mãos e vem jantar sorriu Lúcia. Ou preferes ir ter com a tua mãe?

Vítor abriu os olhos, sacudiu a cabeça. O medo travou-lhe a língua. E Lúcia percebeu que palavras eram desnecessárias.

Às vezes, acções falam mais alto. E se ele se esquecesse, ela lembrar-lhe-ia com gosto. Não deviam tê-la subestimado.

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Eu já te avisei – para onde levaste o dinheiro, é lá que vais jantar! E tomar o pequeno-almoço também, já agora – declarou a esposa, sentando-se na poltrona com a sua malha