A sua zombaria foi a sua perdição – agora come na minha cozinha para os necessitados.

«Nem um cão comeria as tuas almôndegas», diz ele a rir, e atira a comida fora. Agora come na cantina social que eu financio.

O prato com o jantar voa para o lixo. O tinir nítido da porcelana contra o plástico faz-me estremecer.

«Nem um cão comeria as tuas almôndegas», repete ele com um sorriso, apontando para o cão que, ostensivamente, vira a cabeça para o lado quando ele lhe oferece um pedaço.

Nuno Matos limpa as mãos num pano de cozinha caríssimo que comprei de propósito para combinar com os móveis novos. Ele é obcecado por pormenores, principalmente quando está em causa a imagem dele.

«Cidália, já te disse. Nada de cozinha caseira quando espero sócios. Isso parece pobre.»

Ele cospe a palavra como se deixasse um travo podre na boca.

Olho para ele, para a camisa impecavelmente passada, para o relógio caro que ele nunca tira, nem em casa. E, pela primeira vez em anos, não sinto raiva, nem vontade de me justificar. Só frio. Um frio penetrante, gelado.

«Eles chegam dentro de uma hora», continua, sem dar pelo meu estado. «Manda vir os bifes do Tavares. E a salada de marisco. E arranja-te. Veste o vestido azul.»

O olhar dele percorre-me.

«E prende o cabelo. Esse ar natural faz-te parecer ordinária.»

Aceno em silêncio. Só um movimento mecânico.

Enquanto ele dá instruções ao assistente ao telefone, vou apanhando os cacos do prato. Cada caco é tão afiado como as palavras dele. Não tento responder. Para quê? Todas as minhas tentativas de «ser melhor para ele» acabam na mesma humilhação. Os meus cursos de sommelier, ele goza com eles: «passatempo de dona de casa entediada». Às minhas tentativas de decoração, ele chama «sem gosto». A minha comida, onde ponho não só esforço, mas também a última esperança de carinho, vai parar ao lixo.

«Sim, e leva um vinho bom», diz ele ao telefone. «Mas não aquele que a Cidália provou no curso. Um a sério.»

Levanto-me, deito os cacos fora e encaro o meu reflexo no forno escuro. Uma mulher exausta, de olhar apagado. Uma mulher que, durante demasiado tempo, tentou ser um móvel confortável.

Vou para o quarto. Mas não para vestir o azul. Abro o armário e tiro a mala de viagem.

Ele liga duas horas depois, quando já estou instalada num hotel barato nos arredores de Lisboa. De propósito, evito as casas de amigas, para ele não me encontrar logo.

«Onde estás?» A voz está calma, mas por baixo da calma espreita uma ameaça, como um cirurgião a olhar para um tumor antes de o remover. «Os convidados estão todos cá, mas falta a anfitriã. Muita falta de educação.»

«Não vou, Nuno.»

«Como assim, não vens? Estás amuada por causa das almôndegas? Cidália, não sejas criança. Volta.»

Ele não pede. Ordena. Convencido de que a palavra dele é lei.

«Vou pedir o divórcio.»

Silêncio do outro lado. Ao fundo, ouço música baixa e o tinir de copos. A noite dele continua.

«Percebido», responde por fim, com um gozo gelado. «Então queres mostrar carácter. Muito bem. Representa a tua independência. Vamos ver quanto tempo aguentas. Três dias?»

Desliga. Não acredita. Para ele, sou apenas um objeto que falhou durante uns tempos.

Uma semana depois, encontramo-nos no escritório dele. Está sentado à cabeceira de uma mesa comprida, com um advogado bem barbeado e cara de jogador de póquer ao lado. Eu vou sozinha. De propósito.

«Então, já te passou?» O Nuno sorri com superioridade. «Estou pronto para te perdoar. Se te desculpares, claro.»

Sem dizer palavra, coloco os papéis do divórcio em cima da mesa.

O sorriso desaparece. Ele faz um aceno ao advogado.

«O meu cliente está disposto a ser razoável», começa ele, com voz suave. «Tendo em conta o seu estado emocional instável e a falta de rendimentos.»

Empurra uma pasta para mim.

«O Nuno cede-lhe o carro. E está disposto a pagar seis meses de pensão de alimentos. Uma quantia mais do que generosa, para poder alugar uma casa modesta e arranjar trabalho.»

Abro a pasta. A quantia é humilhante. Não são migalhas da mesa dele; é o pó por baixo.

«A casa, claro, fica para o Nuno», continua o advogado. «Foi comprada antes do casamento. O negócio pertence-lhe. Não há bens comuns. A senhora não trabalhou.»

«Eu tratei da casa», digo baixinho, mas com firmeza. «Criei um lar para ele voltar. Organizei as recepções que o ajudaram a fechar negócios.»

O Nuno bufa.

«Lar? Recepções? Cidália, não te faças ridícula. Qualquer mulher a dias teria feito melhor e mais barato. Tu eras só um enfeite bonito. Que, aliás, tem descaído bastante ultimamente.»

Ele quer magoar. E consegue. Mas não como espera. Em vez de lágrimas, a raiva ferve dentro de mim.

«Eu não assino isso», digo, afastando a pasta.

«Não percebes», interfere o Nuno, inclinando-se para a frente, os olhos a apertarem-se. «Isto não é uma proposta.»

É um ultimato. Ou aceito e vou embora em silêncio, ou não fico com nada.

«Eu tenho os melhores advogados. Eles vão provar que viveste de mim. Como uma parasita.» Ele saboreia a palavra. «Sem mim não és nada. Um zero. Nem sequer sabes fritar umas almôndegas. Como queres enfrentar-me no tribunal?»

Olho para ele. E, pela primeira vez em anos, não o vejo como esposa, mas como uma estranha. Não vejo um homem forte, mas um rapaz assustado e vaidoso, em pânico por estar a perder o controlo.

«Vemo-nos em tribunal, Nuno. E sim, não vou vir sozinha.»

Levanto-me e saio, com o olhar dele cravado nas minhas costas, ardente e cheio de ódio.

A porta fecha-se atrás de mim e corta o passado. Sei que ele não vai aceitar. Vai tentar destruir-me. Mas, pela primeira vez na vida, estou pronta.

O julgamento é rápido e humilhante. Os advogados do Nuno pintam-me como uma parasita infantil que queria vingar-se depois de uma discussão sobre um «jantar falhado».

A minha advogada — uma mulher mais velha, calma — não discute. Limita-se a apresentar provas: faturas, extratos bancários, recibos.

As mesmas faturas dos ingredientes dos jantares «inadequados», as contas da lavandaria dos fatos dele antes de reuniões importantes, os bilhetes de eventos onde ele fazia contactos — tudo pago por mim.

É um trabalho minucioso, enfadonho. Não para provar a minha contribuição para o negócio, mas apenas uma coisa: eu não sou uma parasita. Eu. Cidália Cardoso.

Rate article
A sua zombaria foi a sua perdição – agora come na minha cozinha para os necessitados.