O Tomás foi abandonado. De novo. Pela terceira vez na sua curta vida. Não tinha sorte, coitado.
Ainda não tinha completado um ano e já tinha sido rejeitado por três famílias. Bem, não foi exatamente abandonado. Primeiro, passou de mão em mão. Depois Depois, simplesmente o levaram para fora de casa, afastaram-se um pouco e deixaram-no num caixote do lixo. Fugiram antes que ele pudesse encontrar o caminho de volta. Mas ele nem tentou.
Percebeu logo. Viu no rosto do homem. A esposa tinha ficado desolada quando o Tomás arranhou o sofá de couro novo. Muito caro. Foi ela quem deu a sentença. E o marido? O marido sempre concordava com tudo.
Pegou no gato de um ano, levou-o debaixo do braço e foi até ao contentor no prédio ao lado. O Tomás nem tentou segui-lo. Não. Viu a decisão nos olhos dele e compreendeu.
Tudo em vão. Podiam ter-se despedido como gente. Um afago, um pedido de desculpas. Mas não. Foi como deitar fora o lixo.
O Tomás suspirou e tentou encontrar algo para comer no meio dos restos, mastigando uns pedaços velhos de frango. Saiu do caixote e sentou-se ao lado, sob o sol.
Fechou os olhos contra a claridade, mas não se afastou. Aquele grande círculo de luz trazia calor, e ele gostou. Foram os últimos raios do verão, do outono, do inverno. Um breve aquecimento. E o gelo derreteu.
Mas dentro dele, continuou congelado.
A noite foi fria. Depois do pôr do sol, o vento e a geada fizeram o seu trabalho. O gato ruivo estava a congelar. Não sabia para onde ir, então encontrou uma pilha de folhas secas e enterrou-se nelas. Enrolou-se numa bola. No início, tremia de frio, mas depois
Depois, quando o vento cobriu o seu pelo com uma camada de gelo, sentiu-se mais quente, e os tremores pararam. Uma voz sussurrou-lhe palavras doces.
Disseram-lhe para fechar os olhos e esquecer a dor, o sofrimento.
Enrola-te mais e dorme. Dorme, dorme, dorme. Sentiu calor.
Um calor que se espalhou pelo seu corpo rígido.
Era tão simples. Bastava render-se, e tudo acabaria. Haveria paz. O rancor desapareceria.
O Tomás suspirou pela última vez e aceitou. Para quê lutar? Porquê?
Amanhã seria a mesma coisa: frio, fome, o desejo de nunca mais abrir os olhos.
Os candeeiros da rua acenderam-se ao longe. O Tomás olhou para a luz pela última vez. Costumava vê-la da janela de casa. O gato ruivo absorveu aquela claridade, e os seus olhos brilharam na escuridão.
Foi esse último clarão que chamou a atenção de uma menina ruiva. Ia a caminho de casa com o pai. Puxou-lhe a manga.
Ali disse ela Há alguém nas folhas.
Não há ninguém resmungou o pai, encolhendo-se do frio. Vamos para casa, estou gelado.
Tentou afastá-la da pilha escura de folhas, mas a menina encolheu os ombros.
Eu vi. Vi luz.
Luz numa pilha de folhas? O pai riu-se. Isso não existe.
Mas ela já estava lá, afastando as folhas até encontrá-lo. O gato ruivo.
Pai! gritou.
Eu sabia. Era ele.
Quem? O pai aproximou-se, confuso.
Ele. A menina tentou levantar o corpo gelado.
Deixa-o disse o pai. Já morreu. Não vamos levar um gato morto para casa.
Ele não morreu insistiu a menina. Eu sei. Eu sei. Ele está vivo. Vi luz nos olhos dele.
Luz nos olhos de um gato? O pai encolheu os ombos, mas aproximou-se. Pegou no corpo e tentou sentir o coração.
O Tomás queria tanto dormir. O sono colava-lhe as pálpebras, e o calor envolvia-o. A voz lá dentro sussurrava:
Dorme, dorme, dorme Não abras os olhos.
Mas aquele vozinha fina, teimosa, repetia:
A luz nos olhos dele.
O que querem de mim? Porque não me deixam descansar?
O Tomás abriu os olhos, a custo, para ver quem o perturbava.
Vês? gritou a menina. Vês? Eu disse! Olha outra vez! A luz!
Que luz? O pai hesitou, mas depois tirou o casaco, embrulhou o gato e seguiu para casa.
A menina correu ao seu lado.
Pai, vamos! Ele está com frio!
Desapareceram no prédio. Uma luz acendeu-se no quinto andar.
Deram banho ao Tomás com água morna, deram-lhe leite quente. A menina suplicava:
Não morras, por favor. Não morras.
O gelo no seu pelo derreteu. E o gelo dentro dele também.
O gato ruivo olhava espantado enquanto o pai e a filha cuidavam dele. Já estava acordado. E agora, sentia-se verdadeiramente quente.
Não era o calor do radiador. Era o calor de um coração pequenino.
Lá fora, alguém observava. Alguém que às vezes aparece para ajudar.
Ficou a olhar para a luz no quinto andar e murmurou:
É tudo o que posso fazer.
Pensou um pouco e acrescentou:
A luz Nem toda a gente a vê. E nem toda a gente que a vê consegue mantê-la.
O Tomás, a olhar para a menina ruiva, não pensava na grandeza do ser humano. Isso são coisas de pessoas. Ele pensava apenas numa coisa.
Tinha visto a luz. A luz nos olhos dela.
Hoje aprendi que, por vezes, a salvação vem dos mais pequenos. E que a verdadeira luz não está no céu, mas nos olhos de quem ainda acredita.




